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"Os vinhos naturais e as modas" por Professor Especialista Pedro Guerreiro

Artigo de Opinião publicado no semanário Vida Económica

Antes de mais, uma declaração de interesses: fui sempre resistente às modas.
Como gestor, assusta-me o ciclo curto, com um crescimento que inebria as decisões de investimento e uma queda normalmente abrupta e inevitável, consumidora de recursos que raramente a estancam. Como pessoa, incomoda-me o seguidismo, a incapacidade de ter vontade própria, o desprezo pela descoberta da diferença. No fundo, as modas pareceram-me sempre resultado da junção de personalidades pouco vincadas, menos atrevidas; em suma: menos interessantes.
Vem isto a propósito da - assim denominada - tendência dos `vinhos naturais'. Não há restaurante da moda que não ceda à tentação. Não há pseudo-informados dos vinhos que não avancem com esse tema, numa qualquer discussão entre amigos. 
Mas o que são, de facto, os vinhos naturais? O tema é polémico. O vinho natural é um vinho que tem uma intervenção humana mínima: viticultura biológica ou biodinâmica, colheita manual, fermentação controlada por leveduras autóctones. Depois, para alguns, o engarrafamento não pode utilizar dióxido de enxofre e, para outros, a utilização de pequenas doses é compatível com o título "natural". 
Uma coisa é certa: há décadas que alguns produtores assumem este tipo de preocupações e não estão preocupados com rótulos; há outros que respondem imediatamente às tendências (sem o devido tempo de preparação), enganando os consumidores. E, portanto, é mesmo verdade. Muitos dos consumidores que pagam mais por um vinho natural, que invocam sentir sensorialmente no vinho o seu terroir, a sua naturalidade, estão a consumir vinhos absolutamente comuns, sem diferenças substantivas para os outros. 
Neste tema, como em quase todos, não há opiniões definitivas e irreversíveis. A tendência beneficia o sector e os consumidores, apontando um rumo correcto: um rumo que privilegia mais cuidados na agricultura, tornando-a mais sustentável; um rumo que beneficia ainda os verdadeiros apreciadores, promovendo a criação de vinhos menos aromáticos, mais saudáveis e mais compatíveis com a sua casta e o seu terroir. Mas é importante que os consumidores percebam que também não há milagres momentâneos. Não há empresas capazes de reagir ao mercado mais rapidamente do que os ciclos de produção permitem. 
Como amante do sector, como pessoa que respeita a Verdade, como profissional dos vinhos, preocupa-me a falta de genuinidade. Pode-se enganar uma, duas ou três vezes os consumidores mais incautos. Mas não se pode enganar todos durante todo o tempo. E aqueles que não respeitam verdadeiramente uma agricultura sustentável e a natureza humana podem acabar por prejudicar irremediavelmente um sector promissor, onde Portugal pode dar cartas e sobressair no panorama internacional.