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As novas tecnologias e a confiança, por Professor Doutor Victor Tavares

Artigo de Opinião publicado no semanário Vida Económica

A propósito do recente aniversário dos 30 anos da Web (entendida como o conjunto de conteúdos que chegam ao nosso navegador via internet), dei comigo a refletir sobre os enormes impactos que o seu desenvolvimento tem tido nas organizações, sociedades e pessoas. Tendo começado por ser uma sugestão de Tim Berners-Lee para se melhorar a partilha de informação entre cientistas, foi-se progressivamente transformando na principal interface para conectar as pessoas com a internet, ao nível global. A revolução digital em curso irá, certamente, acelerar e intensificar tais impactos, envolvendo as novas tecnologias de computação e outras tecnologias disruptivas, como a tecnologia de rede móvel da próxima geração, conhecida como 5G, a inteligência artificial, a robótica e a blockchain, entre outras.
Contudo, se é verdade que a internet trouxe consigo inovações que mudaram radical e positivamente o nosso estilo de vida, e nos deram uma maior liberdade de expressão e partilha de experiências humanas, também originaram problemas de grande monta, que Christian Purser identificou: o surgimento das famosas fake news, a recolha massiva e utilização abusiva de dados pessoais, as violações da privacidade, a vigilância governamental, as fraudes, etc. Este especialista alerta para a situação de estar a ser criado um sistema em que a rendibilidade e a privacidade das pessoas e instituições estão em conflito aberto, e em que a confiança está a ser séria e fortemente abalada. Assim, na era da web 4.0, não admira que os consumidores esperem e exijam dos CEO das empresas que estes assegurem a confiança e relevância das suas marcas, mais do que a qualidade dos mesmos.
Efetivamente, é curioso saber que, de acordo com um estudo do Grupo Havas sobre a relevância das marcas, se três quartos das marcas existentes desaparecessem, ninguém se preocuparia com isso! Ou seja, se as marcas não forem percecionadas pelos consumidores como sendo confiáveis, seguras, relevantes, autênticas, transparentes, reflexo dos seus valores e com uma oferta de valor que proporcione experiências holísticas gratificantes, deixarão rapidamente de fazer parte do seu conjunto de escolha.
Estando curioso sobre se e como as novas tecnologias que estão a moldar a quarta revolução industrial poderão contribuir para se reconstruir a confiança nas organizações em geral e nas marcas em particular, deparei-me com a solução da tecnologia de blockchain (cadeias de blocos). Essencialmente, esta é um protocolo de confiança, um registo de transações e informações com recurso à criptografia, que serão públicos e descentralizados. Tal tecnologia garantirá que as informações armazenadas e partilhadas entre as pessoas serão precisas e transparentes! Parece bom demais, não é? A grande e boa novidade é que esta tecnologia inovadora está já a ser aplicada em várias indústrias (e.g, social media, finanças e inteligência artificial), existindo evidências que apontam para o desenvolvimento em curso de centenas de projetos de blockchain, tendo como preocupação central salvaguardar a confiança das partes envolvidas.
Em suma, as organizações e marcas mais bem preparadas para o futuro e que visem não só sobreviver, mas também prosperar a longo prazo, serão as que assentem num sistema de valores distintivo, que deem prioridade ao longo prazo em vez do curto, e que apostem nos valores-chave da confiança, ética e responsabilidade social, e que adotem proactivamente estratégias inteligentes baseadas nas novas tecnologias digitais.